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51 – A reforma educativa de maior alcance que se tem feito em Portugal
é a da formatação de professores.

52 – Organização da urbe – As ruas dividem a cidade, dividem mesmo,
isto é, colocam de um lado os edifícios dos arquivos que, diz-se,
pertencem ao Estado. Do outro lado, as casas dos cidadãos
que têm sentimentos vivos.

53 – A razão e o coração: duas colunas que não se fitam, separadas por um espesso nevoeiro. O Homem dividido em si. A máxima grega «Gnôthi séauton nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo» é para constantemente nos lembrar disso. E para que a lenta madrugada do espírito possa ir mostrando os alvores da manhã divina.

54 – Consentir também que o efémero é de Deus, numa espécie de “última linha de manifestação”. Na dificuldade de avaliar a sua importância relativa, é de crer todavia que, conforme a palavra, tenha pouca duração. O efémero serve uma vez, como os guardanapos de papel.

55 – O sentido da liberdade criadora e organizadora no céu da apetência do pensamento português é o da exegese do Espírito Santo. O insondável Amor do Pai, através da mediação do Filho, toma forma e ganha inteira expressão no acto criador e libertador do Espírito Santo. E nisto, tudo o que se tem entendido por Revelação toma um sentido mais luminoso. Ele é o salvador das épocas caóticas, dos tempos do desespero, o súbito horizonte de alegria que se abre no naufrágio do soluço nocturno.
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Centro Rosacruz Max Heindel
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56 – Em Portugal, os revolucionários de esquerda e os trôpegos de direita são
 portugueses nem pela metade; neles só um hemisfério cerebral parece funcionar.
Quando lhes é solicitado um pensamento, pedem licença e saem para apanhar ar.
A música da sua preferência parece ser a marcha, uma estranha e absurda marcha:
um, dois… esquerda, direita… Mas como o espaço da parada é pequeno em Portugal,
 eles marcham parados… um, dois… esquerda, direita…

57 – …E aqueles que, por tanto tempo e de vários modos, se habituaram tanto à
noite sem lua, que já não têm a memória do sol.

58 – Consciência espiritual – Não basta crer em Deus, num Universo de Amor,
Inteligência e Beleza. A demanda do Espírito Santo a todos convoca para o
movimento que sob várias formas está presente nas personagens da Cena Divina,
enfim, observar a imanência de Deus, «O Criador nas criaturas», como disse
Frei Agostinho da Cruz.

59 – Esperança e certeza. Para a ciência, esperança pouco significa, procurado o que possa ser medido e demonstrado. Todavia, a certeza e a exactidão também vacilam perante os factos do imprevisto e do imprevisível. Ora, só na esperança - campo aberto das possibilidades e, assim, da realização – pode haver lugar para o insondável e difícil de ser dominado (controlado), e que cientificamente foi descrito pelo «princípio do indeterminismo» ou «desigualdade de Heisenberg». Esperança e certeza. A primeira é que nos dá a luz. Ela é a eterna mãe, a geradora incansável que depois faz nascer (surgir) o corpo do concreto, e que, neste caso, poderíamos também chamar “corpo de ciência”.

60 – Painéis de Nuno Gonçalves – Para além da identificação nominal das personagens, o que mais importa é a sua função arquetípica, por si mesma, e nos planos que ocupam. O obsessivo empenho de saber o nome da cada figura, pode cegar para a unidade funcional que se movimenta plena de sentido em âmbito mais subtil.
Que dinastia, ciclo ou época tem o seu começo no momento da abertura da Bíblia no Evangelho de S. João? É essa a Hora de outra História, a da contracção do tempo, ou a da sua plenitude?
                         61 – Uma casa antiga - a emancipação das pedras.

                           62 – A nossa voz interior - o primeiro e o último mestre.

                             63 – Uma luz que viesse e nos desse nos olhos; uma chicotada mística que nos fizesse bater com a cabeça no entulho que amontoámos; um sol que nos queimasse a alma mais que a pele, e que por fim só pudéssemos aliviar esse escaldão de dor com a mais pungente das orações.

                            64 – O Estado-Providência e o Espírito Paráclito. Admitindo a necessidade do primeiro, no plano material, - reformulado em novo Estado, como se exige – e a supra- realidade do segundo, a correspondência é perfeita, seja por antítese ou por síntese. Duas faces da mesma moeda que, ora tilinta, ora paradoxalmente se transmuta em jacto de luz.

          65 – A confusão entre duas palavras tem contribuído para uma visão distorcida do que é ser português. São elas universalismo e patriotismo na imagem, podemos dizer, das duas repúblicas: a de 31 de Janeiro de 1891 e a de 5 de Outubro de 1910. Junto aos patriotas, esta está relacionada com os patrioteiros do Terreiro do Paço (deslocado agora, em grau variável, para Bruxelas); a primeira, a dos nossos arquétipos mentais e espirituais, confere significado ao patriotismo universalista do português, o que emigra e consciente ou inconscientemente busca esse amplo sentido de ser, até encontrar o centro do mundo ou Reino do Preste João, ao qual, actualmente, pode até dar outro nome. Patriotismo universalista também do português que teve de ficar, à procura do centro, exilado na sua viagem estática, por não ir no caudal avassalador que corre sobretudo da Europa central para ocidente.
Mas nisto tudo há uma terceira situação – aquela infelizmente tida por vitoriosa, a mais apetecida, oficialmente bem reconhecida e intelectualmente a mais consensual – que é a dos que, discordando dos patrioteiros do Terreiro do Paço, se lançam na aventura de um universalismo que querendo ser tudo, recusa (geralmente por medo da solidão, da falta de aplausos e outros proveitos) e até se envergonha do que é medularmente português. Por isso o seu universalismo soa a choco, como os cântaros de barro rachados que só quando se enchem de água se vê que logo a deitam fora de novo.
66 – Só quando houver discernimento do abismo existente entre egoísmo e Amor, poderá o ser humano começar a ter entendimento da Liberdade.

67 – É bem visível que cada vez mais há população envelhecida.
Prolonga-se um pouco a vida no corpo físico,

e havendo menos nascimentos, o facto aí está.
Não sendo a velhice uma tristeza, mas um passo da vida,
turva-se-nos os olhos e a alma quando vemos que muitos dos anciãos
(e até os mais novos) deixaram morrer a criança dentro deles, o
u a sufocaram de tal maneira que ela já não se sabe exprimir.
Por isso nos parece que, na nossa sociedade, muitos dos que
já viveram mais anos têm aquela falta de alegria pulsante que se estampa ainda na pele enrugada. Alegria natural que, mesmo na fase em que a vitalidade baixa, a sua essência se transforma em sagaz beleza, nunca murchando de todo. Tal é a imortal Natureza que, seja Primavera ou Outono, nos encanta a seu modo.

68 – Universidade - estação de comboio rápido que tarda em chegar.

69 – O alcance que o latim teve como factor de unificação do Império Romano e da Igreja Católica, na liturgia e como instituição, pode também tê-lo, noutro âmbito, um certo mundo que se deseje salvar num futuro próximo, colocando as correctas relações humanas a dominar a tecnologia. Chamemos-lhe lusofonia, ainda que seja mais desejável pensarmos numa lusossofia; não agora através de uma unificação, mas numa convivência em sintonia de complementos, onde no meio de tudo o rumor da Língua e um modo de ser na vida identificam os novos argonautas do espírito, que começam a deixar a terra para os que ainda vêem nela todo o anseio da vida.
70 – Tal como pelas leis naturais, para que uma pedra regresse de novo ao chão ela deve ser lançada ao ar, no seguinte caso, a inexistência de movimento (da alma da nação) pode não implicar um outro proporcional e contrário e, assim, na hora que passa, a questão é saber se merecemos
que D. Sebastião regresse!
71 – O homem: rei da Criação, ou aio da Criação?

72 – Tudo o que nos prende começa por ser a única salvação. Depois há o movimento inquieto da negação. Mais tarde a verdade pode surgir como um fino relento na noite calma.

73 – «A prognosticabilidade é uma consequência do desenvolvimento organizado» - Dane Rudhyar. É de admitir que uma elite de seres pensantes de uma nação, homens e mulheres organizados que façam seguir a acção ao pensamento e cujo movimento do espírito gira à volta (em ) de Deus, possam emitir o melhor e possível prognóstico para a sociedade, admitindo, todavia, que o imprevisível e o imprevisto são irmãos gémeos, filhos da liberdade divina concedida aos homens, segundo o momento, a Hora que concede o timbre à História.

74 – Não se pode dizer que uma república oca (a de 5 de Outubro), depois uma ditadura mal ditada, por último uma democracia paradoxal – ou um paradoxo intitulado democracia portuguesa – tenham sepultado completamente Portugal, como alguns, em estilos diferentes, têm dito. Do mesmo modo que não dizemos que Camões foi sepultado em Lisboa, mas sim o seu corpo, também Portugal não foi sepultado pelas mudanças políticas apontadas. Apenas partes do seu corpus temporal têm sido cremadas por algumas formas de inquisição ainda activas. A turberculose não foi de todo extinta, e quando volta é mais resistente. A serpente – distintivo daquela misteriosa Ordem que, segundo Pessoa, preside ao nosso Destino – muda, naturalmente, a sua pele para continuar a viver mais rejuvenescida. Por isso, o dito popular “estar na pele de alguém” é estar (sentir) bem no âmago da sua alma.

75 – A lança e o cavalo substituem-se, ou melhor, têm os seus equivalentes no amor e na imaginação. No amor, estando implícita a defesa, a lança só servirá para proteger e curar os mais fracos e oprimidos. No brilho, visível ou não, desse metal cintilam os sonhos na promessa de se cumprirem. Na imaginação – incansável corcel – conquistaremos as terras e os espaços de Deus para os Homens de Boa-Vontade, todos esses que ainda não foram catalogados pelo saber humano.
46 – A Verdade guarda-se no mito: virgem para se entregar aos braços irreconhecíveis de cada época.

     47 – O dia de hoje não é só o dia de hoje. É o dia de todos os tempos. Hoje, porém, devo dar-me a este tempo presente. Para que, no futuro, não se diga em vão que esse dia não é de todos os tempos…
             48 – Quando, a torto e a direito, ouvimos a expressão “este país”, para além do mecânico hábito de impensada repetição, ainda assim podemos crer que algo fala verdade pela desocultação de uma ausência, ou seja, a insistente menção a “este país” significa que um outro existe ou poderá vir a existir. Dado que a expressão tem sido sinónimo de uma fonte interminável de desgraças e dissabores culturais, é de crer no “outro país”, mais verdadeiro, estável e prometedor. Nele vive conscientemente a nação e – melhor ainda – a pátria, o ser inconfundível e universalmente português.

             49 – Todo o pensamento que seja faina diária provoca transpiração. Mais do que a segregação das glândulas endócrinas vertida directamente no sangue, esse suor do pensamento espalha-se pela alma e pelo intelecto. Ao contrário dos vírus que tendem a disseminar-se rapidamente, esse misto de transpiração e dor só se abre em plenitude no tempo certo; assim as flores na época apropriada.

50 – A Torre de Belém, ante o mar e o horizonte, está voltada ao céu para sonhá-lo e, um dia, deixar a terra. Para onde se erguem as torres de hoje?
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                      Natal Português

               76 – O Menino (Desejado) nasce na noite mais escura, a noite encoberta ou do Encoberto. Os pastores anunciaram o nascimento; os navegadores portugueses anunciaram a Idade Moderna.

                 77 – Os três Magos procuraram a Estrela; o pensamento português gosta de seguir a Estrela que diariamente se apaga no Ocidente, deixando-nos a esperança de nascer de novo.

                 78 – O Menino nasceu no seio da pobreza, palavra que deve ler-se pureza. Os actuais Herodes do luxo e do riquismo odeiam o verdadeiro (re) nascer. Logo que se começam a formar as cartilagens e carnes tenras da Verdade de um qualquer assunto, eles mandam matar todos esses os meninos…
               Que seiva alimenta hoje a árvore de Natal electrificada, erguida como uma torre de solidão e de sombras sobre um chão feito com base em percentagens de lucro por centímetro quadrado?

79 – Uma das celebrações mais universais é o Natal. Porém, cada povo gosta de decorar a gruta à sua maneira; de sentir o bafo do que lhe está próximo; de escolher o ágape festivo sob a toalha apetecida na noite em que a Luz do mundo toca os pequenos luzeiros, em cada casa, iluminando de esperança mais um ano.

80 – Entre o verso da Ilíada «Terríveis são os deuses quando nos aparecem às claras» e a misteriosa naturalidade e simplicidade com que um ser divino se mostra como Homem, nascendo entre nós, estende-se a multiplicidade do mundo que, de tempos a tempos, se interroga mais alto, ora para constatar o poder (aparente) das trevas, seja para discernir , através de uns poucos, que o excesso de luz cega o que a não pode fitar. Por isso, em algum grau, há analogia do Encoberto português e a verdadeira natureza do Menino ou Cristo-Jesus.
 81 – Vamos pôr os pontos nos is, os únicos nos dois títulos seguintes:
«O menino de sua mãe», de Fernando Pessoa, é D. Sebastião.
A diferença é que no «plaino abandonado» africano, ausente de balas
mas enxameado de espadas, o Rei poderia não ter a «cigarreira breve».
 Mas, não a tendo, havia contudo a breve cigarreira de um reinado que
a Pátria lhe destinava, afinal, a cigarreira breve que a Mãe lhe dera…

82 – « … a república dos portugueses é uma daquelas comunidades, ou nações,
que já existiam antes do Estado, da soberania e do próprio nacionalismo e que
 tinha hábitos de relação saudável com as comunidades infra-nacionais e
supra-nacionais». Assim escreveu José Adelino Maltez. A isto se contrapõe
a absurda ideia de regionalização em Portugal, em vias de ser lançada como mais uma epidemia.

83 – «… a Nova Águia, movida pela mesma ânsia de altura e altivez, assume a tradição futurante que mora no coração de um povo longamente humilhado». Assim escreveu o atento e sensível pensador Joaquim Domingues, no número 4 daquela publicação. Na tradição bíblica, a dos primeiros que serão últimos e dos últimos que serão primeiros, viceja a nossa esperança, iluminada pela alma saudosa dos poetas, entre tristes e nostálgicos, mas também abundantes do real e do longínquo. A lucidez maior será a do momento da máxima humilhação, porque «Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória».

84 – A actual Assembleia da República, mesmo nos momentos mais solenes, constitui paródia grosseira do rigor, equilíbrio e sentido hierático existentes nessa tão enigmática como nobre Assembleia de Seres que são as figuras serenas dos Painéis de Nuno Gonçalves, e que deveria ser modelo, salvo a natureza, em grau, nas diferentes funções da vida da nação. Enquanto que a assembleia representada pelo pintor quinhentista é um arquétipo de plena e insubstituível participação de cada um dos presentes, dir-se-ia de singulares em comunhão ou diversidade convergente, o actual hemiciclo parlamentar é um amontoado de pessoas que mexem em ideias sem ideais, desordenamento de fragmentos, que poderiam pertencer a qualquer país, mudando-lhe apenas o nome das localidades e instituições.
Aforismos
        (cont.)
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