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2. A saudade é o milagre do concreto. Lembrar-se é ser arrastado para a verdade de algo que já foi, ou de um dia longínquo ainda, e que se sabe ser também certo.
3. “Portugal”. É com aspas que se tem lavrado o nome, no sagrado solo do decorrer do tempo. Retiremos as aspas com que se tem escrito Portugal. Elas não vêm de cima, do céu, mas dos térreos baixios, como as ervas daninhas e musgosas que sobem pelas paredes dos espaços abandonados onde não habita viva alma.
4. A ciência - a materialista, entenda-se - é uma mística iludida. A moderna obsessão dos nossos governantes pelas estatísticas é uma espécie de remorso pela falta de virtudes.
5. O conjunto de todos aqueles que pensam a pátria é, sem necessidade de demonstrações históricas, o Portugal virtual ou aquele que ronda o arquétipo. Por isto se deduz, pela via contrária, que na sociedade actual possa haver o Portugal efémero.
11. Não sei se a memória distante é a mais nítida. É, porém, a mais duradoura.
12. Em Lusofilias, de Paulo Ferreira da Cunha (obra que já tardava), o autor, citando Pedro Moura e Sá, escreve: «... A nossa situação actual no mundo nos permite falar de Europa, porque não contribuímos em nada para a destruir. Por erros tremendos ou em virtude de circunstâncias trágicas, quase todas as nações do nosso continente se viram envolvidas na luta e na destruição. Portugal não tem remorsos perante a Europa, porque nada fez contra ela».
Também o Brasil nunca se incomodou muito com guerras.
13. A indiferença jamais tocará a costa de qualquer ponto cardeal; nunca apertará a mão ao nosso semelhante, para lavrar futuras rotas do mapa-mundo. A indiferença jamais saberá que a Terra é redonda.
14. Há fragas no litoral que lembram quilhas de embarcações estáticas. Mas basta que a flor do sonho nasça, no silêncio prenhe de toda a intuição que há na pureza do orvalho nocturno, para haver fome do céu. E nesta ânsia, no que nos cabe de indeterminismo do nosso sagrado instinto civilizacional, a procura é o feixe quântico de todos os rumos do espírito.
15. Nós pelos outros; nunca nós por apenas nós. Esta é a divisa pela qual poderíamos definir a ideia mais ampla de portugalidade. O que assim não for poderá dar lugar a alguma forma de desintegração, a uma cinzenta formatação de ideias de pseudo internacionalismos, ou até fortalecer alguma subtil forma de absorção pelos nossos vizinhos. Se a verdade a vemos como ilusão, na indecisão entre a face externa e o lado de dentro, poderemos admitir ou não, qualquer dia, um outro 1640. Mas não deverá ser necessário outro Tratado de Tordesilhas, porque, para ir às «Índias do Espírito», parece não haver vizinhos por concorrentes...
Centro Rosacruz Max Heindel
6 – Não pode nem nunca poderá existir ascensão espiritual sem darmos atenção ao que está junto de nós, indo assim do próximo para o afastado, do concreto para o abstracto.
Isto não invalida, a quem disso for capaz, o simultâneo movimento contrário.
Todavia, «quem se levanta cedo em busca de sabedoria, encontra-a sentada
defronte da sua "sentença".
Na sentença deste mestre anónimo está também o sentido de haver pátrias.
7 – O verdadeiro discurso em Língua Portuguesa é aquele em que a laringe
segue o verdadeiro curso…
8 – Desdenhar Portugal como tema de reflexão é a mesma atitude
(preconceito) mental de recusa, igual à do estadista que insistia na expressão
<<a pátria não se discute».
9 – Quem diz filosofia extravagante, diz filosofia extravasante, ou poesia
transbordante. Menos ao jeito dos rios que temporariamente se estendem até
às margens, e mais ao do poço de Jacob no espaço incalculável das suas águas…
10 – Universo Inteligente – Título de muitas publicações e manifestações científicas. Menos vulgar é conceber um Universo de Amor, onde na mais alta expressão está, naturalmente, a inteligência.
Obrigado, Leonardo Coimbra.
16. Nos extremos raianos dos actos rígidos decretados e das rotundas da banalidade onde se cultivam torres de Babel, para além dessa fronteira, começa Portugal.
17. Os nossos olhos deixaram de ver longe, com lucidez, quando se voltaram para um ponto fixo, demasiado fixo. Vimos em demasia a cor e o preço da pimenta, e quantas vezes rejeitámos a temperança, embriagando-nos com o cheiro da especiaria. Aí criámos cataratas que importa retirar.
O nosso mandala deve ser o círculo, ou melhor, a esfera. Nos tempos em que se pressentiu que a fortuna poderia vir a desfazer-se, e quando nos encontrámos no caminho
fatídico da expulsão de quem já morava no nosso coração, ainda assim,
a melhor herança foi a esfera armilar para nos lembrar a necessidade
quotidiana de olhar o mundo. Diz-se na teoria do mandala que, até
que tudo se harmonize, não se deve fixar ponto algum. O olhar deve
ser uma totalidade. Só depois encontraremos o ponto central ou, se
quisermos, alguma revelação. Em geografia somos periféricos.
Espiritualmente, só nos podemos realizar no centro do mundo.
Do lado de fora, há que olhar ainda a linha do horizonte.
- «Se não é eleito, que se eleja!» Foi assim que Agostinho da Silva
respondeu à pergunta habitual de quem geralmente cultiva
meias-verdades sobre o nosso destino colectivo. Com rompante intuição,
ou com sabedoria história, ou o Janus bifronte, o autor de Reflexão teria
meditado naquele ponto tão enigmático que tem sido Ourique: o nosso
primeiro Rei, ele próprio se armou cavaleiro, isto é, elegeu-se!
19. Constituição Europeia – a esfinge clonada.
20. Os assaltos (à mão armada ou desarmada) à cultura portuguesa ocorrem do seguinte modo: na impossibilidade de roubarem para transaccionar no mercado, os ladrões tudo escondem, de modo que ninguém destape, ou então deixam tinta de um tipo mais moderno e sofisticado que graffiti, para que seja difícil ler o que havia antes…
21 – Novas gerações – pássaros que devem ter mais duas asas.
22 – Os que repartem a noite entre o perfume do descanso e as raízes
maceradas da dor, escutam nitidamente o primeiro cantar do galo.
23 – Na pátria coexistem vários níveis de ser, estratos diversos, tempos
sobre tempos. Todavia, o seu mais alto sentido de realização radica, na sua flor mais pura, na montanha mais elevada, no ponto mais imaterial.
Aí concebemos a Ilha dos Amores, a Ilha Universal que, realizando o melhor de cada habitante e dando a todos o melhor de si, deixa de ser ilha para se tornar no paraíso sem isolamento.
24 – O sapato perfeitamente ajustado ao pé. Eis o sentido do nome profético Bandarra. Temos andado com sucessivos e longos desajustes ao nosso pé, leia-se forma de vida do ser e da nação, e, assim sendo, Bandarra continuará a ser ideal de perfeição nacional.
25 – «Guardado está o bocado para quem o há-de comer». A sabedoria popular-tradicional opõe-se às políticas actuais. O paradoxo surge pela mão de quem devendo culturalmente alimentar e tornar consciente esse conhecimento estratificado da madre experiência ao longo dos tempos, governa não só ignorando o facto, como lhe impõe, tantas vezes, uma espécie de contranatura que põe a nu a ineficácia de acções falhadas. O «guardado está o bocado para quem o há-de comer» é comido de imediato por quem o deveria distribuir, ficando o caldo de ervas amargas, cuja amargura parece não ser suficiente para questionar que pão é que andamos a comer.
26 – O olhar de uma criança: altar de Deus.
27 – Pôr-do-sol: aceitação do feminino.
28 – Ressurgimento (ressurreição) da Terra:
não ajudes à sua aniquilação, que
do ressurgimento ela se encarrega!
29 - São muitos os exemplos que nos dizem que,
em última instância, o rumo superior da História
escapa sempre àquilo que os Homens gostariam
que de todo ela fosse… Neste ponto, encontramos
também o sentido do adágio
«Deus escreve direito por linhas tortas».
30 - Quando a vida me permite e simultaneamente me impele a calcorrear o país, sinto ainda um pulsar medular, e uma parece-que-perdida imagem que de repente me rodeia como um fantasma. É a alma da nossa gente, um rosto de dentro com um íntimo de sobrevivência, mas acrescentado na virtude a dizer que não renega. O outro rosto, o de fora, sobreposto, a derreter-se no artificialismo imposto. E neste aperto recordo sempre, comovido, os versos de Miguel Torga «Ah, meu povo traído, /Mansa colmeia/A que ninguém colhe o mel!...»
1. Inês de Castro só depois de morta reinou para sempre. E Portugal? Degolado pela inveja (última palavra de Os Lusíadas) no seu verdadeiro amor, não será também pátria, mito e arquétipo, só depois da fatalidade, ocorrida ou ainda a verificar-se? Ergamos-lhe o território sem delimitações de alma; o trono assente no coração do povo; na representação dos hemiciclos, ou ciclos da verdade, em discussão universal.
31 - Granitos da Beira-Alta: a vida é dura.
32 - Centros Comerciais: labirintos do efémero património.
33 - Quando Portugal fez a sua adesão à CEE, assinou o manifesto da sua
anticultura na sua contranatura. Não que o nosso país não seja europeu.
Todavia, aderindo ao centralismo do velho continente (hoje refém das
suas leis), negou assim Portugal a sua condição periférica, o mesmo é
dizer universal, e que teve desde sempre. Para se «cumprir», falta-lhe
realizar de novo a adesão à comunidade do mundo.
34 - «Não se deve limitar Deus», como insistia Agostinho da Silva. Podemos estar a diminuí-Lo ou negá-Lo junto de nós, para excessivamente afirmá-Lo no infinito.
35 - Importante é saber se pela pátria podemos continuar rumo ao universal; saber se temos barco, e se o barco leva a toda a parte. Já demos uma volta inteira. Façamos outra mais acima. Pode embarcar quem não tem os pés em nenhum cais, ou quem já chegou a todo o lado?
36 – Um escritor, ao tratar um tema de índole religiosa, ou nos ajuda a (re) ligare o que há de humano e divino em nós, ou contribui para nos afastar cada vez mais da nossa natureza essencial. A sua obra, ou nos eleva, ou nos rebaixa. Ou abre horizontes de infinitude, ou no seu cepticismo (às vezes cinismo) pode, com mais ou menos alcance, substituir-se à fonte de onde bebeu. Esse puro som da água, o autor poderá ouvi-lo, mas nunca escutá-lo. E assim, certas criações literárias vão-nos ficando como “manuais de crueldade”, e o mais perigoso é que a questão se pode tornar em novos e maus costumes, isto é, a obras desta natureza seguem-se outras do mesmo estilo…
37 – Como alguém disse, a negação de Deus é uma forma de analfabetismo. Ora, alfabetizar o mundo só a Vida o pode fazer devidamente, a par com outras ajudas que os homens concebem em sintonia. O ateu permite activar no crente a potência da fé e do conhecimento revelado, por vezes a companhia momentânea do sublime. Ele é a nota dissonante que torna evidente a beleza da harmonia. É certo que todos somos filhos de Deus, criaturas do Criador, porém aquele que nega a transcendência é como o aviador que não sabe onde vai: se no ar, em terra, no mar, ou em lado nenhum. O crente vê a si e mais além no espelho da Criação. O ateu é o espelho partido…
38 – Aquele cuja língua golpeia a casa sagrada da Palavra do Senhor e comete violação no regaço do coração dos simples, um dia poderá ou não ter a graça de Deus de não ficar tolhido das mãos para manejar o arado, a caneta ou o computador.
39 – Fazendo jus ao ditado popular, por muito que um boi olhe para um palácio, o boi nunca saberá o que é um palácio!
40 – Ai de nós se não formos capazes de (re) anunciar um mundo melhor, a comunhão dos dias que começam nas manhãs de esperança (leia-se ou releia-se Prisioneiros da Esperança de António Carvalho, Âncora editora). Ai de nós se não formos capazes de mostrar a diferença dos livros efémeros e daqueles que foram escritos sem prazos de validade, para eterno benefício da humanidade. Anunciar, em tempos de agora para outros tempos, requer o exemplo da navegação perfeita por oceanos de sentir, de pensar e de agir.
41 – Os novos púlpitos entram em nossas casas, convocando-nos para a procissão (pagã ou não) cujo objectivo é ir engrossando à medida que passa, não em cada rua, mas a cada dia. No bulício da água-benta do racional, já ninguém sabe qual o santo que vai à frente…
42 – Mais rápida do que o movimento das pálpebras, a viseira do futuro abre e fecha ao mais simples pestanejar da alma.
43 – Viriato – o Sonho antes do Sonho.
44 – D. Sebastião é o mito do imprevisível. Não se sabe a hora do regresso do Rei-Encoberto e, sobretudo, o modo como o fará. Para além do que a tradição consagra como manhã de nevoeiro - leia-se tempos pouco claros – O Desejado é o mito do imprevisível porque representa o que é novo para criar futuro, e o que é verdadeiramente criação nova não se prevê, embora tome depois as rédeas da História. «Morrer, sim, mas devagar» significa, de modo inverso, reaparecer subitamente, por nunca, em verdade, se chegar a morrer.
45 – A pátria é a janela de onde se começa a avistar o mundo. A nossa é manuelina. Ide…